Análise dos impactos econômicos e comerciais sofridos pelos agricultores familiares durante a Pandemia da Covid 19.

O final do ano de 2019 foi marcado pelo começo de uma nova doença respiratória causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2). Devido a esse rápido avanço da doença, milhares de pessoas foram afetadas diretamente e indiretamente. Mesmo aqueles que não foram infectados pelo novo coronavírus tiveram suas vidas alteradas devido as restrições e medidas de segurança adotadas por todo o território global. Entre essas medidas se destaca o distanciamento social, o qual levou a milhares de trabalhadores e estudantes adotarem o trabalho/estudo remoto. Porém nem todos os profissionais puderam manter suas atividades dentro dessas medidas, entre eles os agricultores familiares.

Segundo os dados do Censo Agropecuário de 2017, compartilhados pelo IBGE, 77 % dos estabelecimentos rurais do Brasil praticam a agricultura familiar, o que gerou o valor de produção de 107 bilhões de reais, equivalente a 23% de toda a produção agropecuária brasileira. Além de ser uma enorme força econômica a agricultura familiar é responsável por alimentar milhares de pessoas e manter a sustentação de diversos pequenos agricultores, indígenas, assentados da reforma agrária, ribeirinhos e todos aqueles classificados como agricultores familiares.

Em uma recente coleta de dados que ocorreu entre maio de 2021 a agosto de 2021, por meio de um questionário distribuído de modo on-line por meio da plataforma google forms e divulgado através das redes sociais. Abordando questões relacionadas a produção e comercialização dos produtos, situação econômica dos indivíduos, dificuldades, limitações, mudanças e adaptações abrangendo o período da pandemia. No total foram recolhidas 65 respostas de agricultores familiares de 14 estados brasileiros, sendo eles: Pará (PA), Paraná (PR), São Paulo (SP), Santa Catarina (SC), Minas Gerais (MG), Ceará (CE), Bahia (BA), Rio Grande do Sul (RS), Espírito Santo (ES), Maranhão (MA), Mato Grosso do Sul (MS), Sergipe (SE), Rio de Janeiro (RJ) e Paraíba (PB).

A maioria (75,4%) dos agricultores entrevistados é dono da propriedade em que trabalha e 12,3% fazem parte de um assentamento da reforma agrária. Outro ponto que merece destaque é a participação de 75,4% dos agricultores em cooperativas ou associações. As associações e cooperativas formada pelos agricultores permitem novas formas de agregação do valor, como aumentar o poder de barganha com os clientes e fornecedores de insumos, acesso a novos canais de comercialização, compartilhamento de máquinas e equipamentos e muitas podem prestar assistência técnica aos seus associados/cooperados. (BATALHA; BUAINAIN; FILHO, [20–]; BIAVA, 2016).

Dentro desse estudo, as três principais atividades realizada pelos agricultores familiares são a produção de hortaliças (72,3%), a produção de grãos (36,9%) e a fruticultura (30,8%).

Assim como as feiras livres, a venda direta ao consumidor e aos estabelecimentos é um ponto importante de comercialização utilizado pelos agricultores familiares, com a venda direta ao consumidor, tem-se uma diminuição nos custos de transação, possibilitando ao produtor a obtenção de maior lucratividade. Em relação a mudança da renda dos agricultores familiares, 73,8% admitiram terem sua renda alterada durante a pandemia, sendo que 60% afirmaram terem seus rendimentos reduzidos e 13,8% aumentados.

Os entrevistados que tiveram diminuição da sua renda atribuíram como determinantes para isso os fatores como o fechamento de estabelecimentos consumidores, como restaurantes e hotéis, redução na oferta e demanda dos seus produtos (inclusive por políticas públicas como o PAA e o PNAE), aumento dos preços dos insumos, dificuldade de acesso a novos mercados consumidores, interrupção das feiras livres e redução da circulação de consumidores naquelas que não tiveram sua interrupção.

Alguns desses fatores descritos pelos produtores como prejudiciais para a sua renda, também foram relacionados com a comercialização, sendo que 76,9% dos entrevistados que afirmaram terem a comercialização dos seus produtos afetada apontaram a interrupção das feiras livres (38,5%), a diminuição da procura (23,1%)

Os  agricultores  familiares  veem  na  agroindústria  uma  oportunidade  para  diversificação  da  produção,  venda  do excedente  e,  consequentemente,  terem  mais  uma  fonte  de  renda  na  propriedade,  assim,  o  processo  de  agregar  valor  aos produtos  é  fundamental  para  que  o  resultado  esperado  por  eles  seja  alcançado .

Com base em todas essas dificuldades descritas, os agricultores que tiveram a comercialização dos seus produtos afetadas procuraram novas alternativas para viabilizar a sua venda, sendo a adoção do delivery e a venda online as mais apontadas. Essas alternativas surgem como uma forma de respeitar o distanciamento social, evitando com que os consumidores saiam de casa.

Além das estratégias mencionadas acima as feiras virtuais/online também surgiram como um novo canal de comercialização, como exemplo a “Feira Fácil Genial” criada pela Associação de Produtores de Hortifrutigranjeiros de Ponta Grossa (ASPHPG) e a “AGROUFAM em CASA” constituída pelos agricultores familiares do estado da Amazonia

Quando perguntados tendo em vista perspectivas futuras, 87,7% dos agricultores responderam que após a pandemia teriam condições (financeiras, físicas e mentais) para continuar a exercer a agricultura familiar, enquanto 1,5% respondeu não ter e 10,8% não souberam responder. Dentre o grupo que respondeu não ter condições os argumentos utilizados foram a limitação física dos indivíduos, insegurança quanto ao futuro, desanimo e o preço dos insumos.

Quadro 1. Fatores relacionados a pandemia segundo o acesso ao auxílio emergencial incluindo fatores que influenciaram o possível não recebimento, grau de alteração na rotina causado pela pandemia, alteração na renda, comercialização afetada e fatores contribuintes, e a permanência na agricultura familiar após a pandemia.

Característica

Número de Indivíduos

Porcentagem (%)

Acesso ao auxílio emergencial

 

 

Sim

29

44,6

Não

36

55,4

Total

65

100

Não recebimento do auxílio

 

 

Não solicitei/Não precisei

32

88,9

Minha solicitação não foi aprovada

4

11,1

Total

36

100

Grau de alteração na rotina

 

 

1

2

3,1

2

2

3,1

3

3

4,6

4

3

4,6

5

6

9,2

6

6

9,2

7

6

9,2

8

18

27,7

9

8

12,3

10

11

16,9

Total

65

100

Alteração na Renda

 

 

Sim, meu rendimento aumentou

9

13,8

Sim, meu rendimento diminuiu

39

60,0

Meu rendimento não sofreu alteração

14

21,5

Não sei dizer

3

4,6

Total

65

100

Comercialização afetada

 

 

Sim

50

76,9

Não

11

16,9

Não soube responder

4

6,2

Total

65

100

Fatores que afetaram a comercialização*

 

 

Sim, devido a interrupção das feiras

25

38,5

Sim, devido a interrupção ou diminuição da demanda de programas do qual faço parte (PAA, PNAE)

14

21,5

Sim, pela diminuição da procura pelos produtos por mim comercializados

15

23,1

Sim, houve uma diminuição dos produtos comercializados em decorrência de problemas de saúde que eu ou um familiar enfrentou durante a pandemia

3

4,6

Sim, outro motivo

8

12,3

A comercialização dos meus produtos não foi afetada durante a pandemia

11

16,9

Não sei responder

4

6,2

Após a Pandemia, terá condições (financeiras, físicas e mentais) para continuar a exercer a agricultura familiar

 

 

Sim

57

87,7

Não

1

1,5

Não sei responder

7

10,8

Total

65

100

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como visto, durante a pandemia a restrição e fechamento das feiras livres, a redução e mudança dos programas governamentais. Sendo que 76,9% dos agricultores admitiram terem sua comercialização afetada e 60% tiveram a redução da sua renda.

Apesar disso, novas alternativas foram desenvolvidas para enfrentar esses desafios, entre elas destaca-se as ações extensionistas que foram fundamentais na criação de uma nova forma de comercialização (feira virtual), apesar disso é preciso ter em mente que a classe idosa (9,2% dos indivíduos da pesquisa) ainda tem dificuldades em interação com essa tecnologia, o que representa um desafio na utilização da venda online, para que isso seja minimizado é preciso que as cooperativas e associações mantenham assistência com essa parte de agricultores.

 

REFERÊNCIAS

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Evento de monitoramento internacional: China – Pneumonia de etiologia desconhecida. Brasília, 2020. 19 p. (Boletim Epidemiológico, v. 51, n. 1). Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2020/janeiro/15/Boletim-epidemiologico-SVS-01.pdf. Acesso em: 3 jul. 2021.

 

BITTENCOURT, Flora et al. Pandemia, agricultura familiar e segurança alimentar na Amazônia: Riscos da COVID-19 na cadeia de valor do açaí. Instituto Peabiru, [s. l.], p. 18, 5 jun. 2020. Disponível em: https://institutopeabiru.files.wordpress.com/2020/06/200605-artigo-pandemia-agricultura-familiar.pdf. Acesso em: 7 jul. 2021

 

IBGE. Censo Agropecuário 2017. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/3096/agro_2017_agricultura_familiar.pdf. Acesso em: 8 jul. 2021.

 

BATALHA, Mário Otávio; BUAINAIN, Antônio Márcio; FILHO, Hildo Meirelles de Souza. Tecnologia de gestão e agricultura familiar. Biblioteca AGPTEA, [s. l.], p. 19, [20–]. Disponível em: https://www.bibliotecaagptea.org.br/administracao/agroindustria/artigos/TECNOLOGIA%20DE%20GESTAO%20E%20AGRICULTURA%20FAMILIAR.pdf. Acesso em: 10 ago. 2021.

 

BIAVA, Jhuly Caroline. O papel da produção de novidades na agricultura familiar: um estudo de caso num condomínio de grãos no Sudoeste do Paraná. 2016. 67 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Agronomia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Pato Branco, [S. l.], 2016. Disponível em: http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/14108/1/PB_COAGR_2016_18.pdf. Acesso em: 12 ago. 2021.

 

CLEMENTE, Flávia Maria Vieira Teixeira (Editora Técnica). Produção de hortaliças para agricultura familiar. Brasília: Embrapa, 2015. 108 p. ISBN 978-85-7035-412-9. Disponível em: https://livimagens.sct.embrapa.br/amostras/00055030.pdf. Acesso em: 18 ago. 2021.

 

NETO, Nelson Castro et al. PRODUÇÃO ORGÂNICA: UMA POTENCIALIDADE ESTRATÉGICA PARA A AGRICULTURA FAMILIAR. Revista Percurso-NEMO, [s. l.], v. 2, n. 2, p. 73-95, 12 jul. 2010. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Percurso/article/view/49466. Acesso em: 11 ago. 2021.

 

BARONI, G. D.; BENEDETI, P. H.; SEIDEL, D. J. Cenários prospectivos da produção e armazenagem de grãos no Brasil. Revista Thema[S. l.], v. 14, n. 4, p. 55-64, 2017. DOI: 10.15536/thema.14.2017.55-64.452. Disponível em: https://periodicos.ifsul.edu.br/index.php/thema/article/view/452. Acesso em: 17 ago. 2021.

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